Reproduzo abaixo o texto que enviei ao concurso de redação UNESCO/Folha Dirigida, a mim indicado por uma amiga. O escrito deveria responder a pergunta acima. Deixem comentários com suas impressões a respeito! :)
Empreender é preciso
A erradicação da pobreza e redução das desigualdades está expressamente caracterizada como fundamento da República Federativa do Brasil no texto da Carta Magna (art. 3º, III). Apesar disso, respostas conclusivas à questão de como atingir esse fim ainda estão pendentes. As possíveis soluções, porém, por mais criativas e engenhosas, encontram ponto de convergência no efeito que produzem: desconcentração de renda.
É ponto pacífico que o combate aos cânceres sociais, como os que a Constituição se propõe a combater, passa, necessariamente, por uma gama de investimentos em educação bem mais expressivos. Isso traz consigo o já lugar-comum silogismo: mais educação implica acesso facilitado ao mercado de trabalho, o que, por seu turno, gera circulação de renda (leia-se “dinheiro”). Este modelo funcionaria muito bem se o Brasil fosse país em que abundassem ofertas de trabalho. Notória e infelizmente, não é caso.
Ora, significativa parte dos empregos existentes no mercado é resultado do trabalho de brasileiros que, num esforço de realização pessoal, decidiram criar suas próprias empresas, ou seja, de empreendedores. Além disso, é justamente a atividade empreendedora que movimenta o país em todas suas esferas, mesmo na pública, a qual subsiste a partir dos impostos advindos dos empreendimentos e seus funcionários, que movimentam a economia. O modelo educacional vigente, todavia, a despeito da notável importância do empreendedorismo no âmbito social, privilegia formar pessoas que assumirão empregos, em detrimento daquelas que os gerarão. A precariedade desse paradigma é bastante clara: que parece mais vantajoso, assumir um emprego ou criar vários deles?
É sobremaneira imperativo, para o país seja dito socialmente saudável, portanto, que a educação, em todos os seus níveis, reflita este anseio: a formação de novos empreendedores, de pessoas conscientes da sua importância para o contexto sócio-econômico da região na qual estão inseridas. O que se observa, porém, é que os que ousam empreender são severamente repreendidos, especialmente no seio familiar, que freqüentemente frustra as tentativas nesse sentido, repetindo frases como “estude e tenha um bom emprego” ou “empresários são jogadores sujos”. Isso é compreensível: é somente a replicação de um paradigma profundamente consolidado. Uma ação para modificar este cenário, cujos desdobramentos seriam sobremaneira benéficos, seria a inclusão de disciplinas relacionadas ao empreendedorismo nos currículos dos cursos superiores das instituições públicas.
Vencer a pobreza e a desigualdade demanda ousadia, não há dúvidas. O empreendedorismo se ocupa exatamente disso: de ousar, de desafiar os paradigmas estabelecidos para superar as dificuldades e assim transformar o status quo. A atividade empreendedora não é uma panacéia, naturalmente. É, contudo, forma bastante eficaz para combater o quadro social que se apresenta. As Grandes Navegações Portuguesas são um exemplo de atitude combativa: que foram elas senão a expressão do espírito empreendedor de um povo não conformado com sua pequenez territorial? Fernando Pessoa estava certo: “Empreender” é preciso.


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